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Jornal A Noticia

Transcrição da Edição de 11/05/1907 - Pg. 1 

             Condenamos

              Sempre!

   Vitor Hugo escreveo um dia, que nada mais risível que a conducta dessa boa gente que imagina poder, a força de gritos, de cóleras, de intrigas e de anathemas, destruir ou modificar, ao bel-prazer da fantasia, uma ordem de ideas que resulta necessariamente de uma ordem de cousas.

    De facto, o espectaculo hodierno vem demonstrar que o grande poeta do século passado não tinha errado ao enunciar, com tanta precisão, o conceito que acima reproduzimos. Não são os gritos, não são as intrigas, as cóleras e os anthemas, meios bastante poderosos para destruir uma ordem de ideas generalisada como esta, que hoje condena os processos que produziram o maior dos escândalos que registra a historia do nosso Estado, o Panamá do Saneamento.

   Pode o orgam official, imitando os servidores do ultimo dos cezares, architectar callumnias, crear invectivas injuriosas por nós não comettidas, para conquistar as graças do poderoso chefe; para demonstrar que a sua dedicação extrema arma o D. Quixote a pelear contra os moinhos de vento creados pela belligera e doentia fantasia.

   Em Roma decahida era esse mesmo recurso que aquelles que almejavam conquistar as sympathias dos divinos imperadores, punham em acção, delatando inocentes, como conspiradores, vislumbrando em cada gesto e em cada palavra dos desafectos, um ataque a augusta personalidade do seo senhor.

    Assim, pois, não nos admira que aquelles que teem ambições insoffridas procurem captar a confiança e o reconhecimento do poder, vindo a campo combater invectivas calumniosas que não declinam.

    É em obediencia a este intuito, que o orgam oficial, esquecido que destas columnas partiram os primeiro e justos louvores a attidude do sr. vice-presidente do Estado, louvores que não se medem pelo estalão do utilitarismo, vem declarar em alto som, que os nosso elances críticos obdecem a intuitos perversos contra a honorabilidade daquele horado patrício.

    A historia reproduz-se: Roma dos Cezares não morreo: resuscita. Mas o que os áulicos não apontam são as injurias, são as calumnias por nós proferidas: a delação dispensa a prova, a intriga busca a sombra.

    O que se quer é mostrar a dedicação, é conquistar a confiança, é fazer jus a mais grossas recompensas. O orgam official, comtudo, termina commungando comnosco na condenação a conducta irregular dos contractantes do Saneamento, que até bem pouco tempo eram pessoas que, pelos seus raros atributos pessoaes, pela sua honorabilidade e competência, se sobrepunham à critica da imprensa e às reclamações dos interessados.

    Pois bem, estes homens que no dizer do orgam oficial de per si garantem os avultados interesses que o Estado lhe confiara, são hoje condemnados chantagistas que o mesmo jornal aponta à execração publica.

    Mas esta condemnação fulminada contra aquelles que eram hontem intangíveis, não basta: - si nós condemnamos a chantage, condemnamos também os processos que a produziram, condemnamos, também, esse desasso, e criminoso despreso com se malbaratou do dinheiro publico.

     Conmdenamos também e não de hoje, essa serie irreflectida de additamentos que ia arrancando, apesar dos clamores, uma por uma das garantias do Estado e uma por uma das cauções de contracto. E justamente porque vimos, nos actos da actual administração, desejo firme de dar novo oriente aos negócios públicos, não poupamos applausos ao digno gesto, não regateamos incitamentos, não recusamos louvores.

    Mas, o que não podemos consentir é que se procure esconder nas dobras de uma bandeira partidária, o escândalo que reclama punição: si o partido do goveno encampa-o, nada mais resta do que repetimos:

            Condemnamos sempre!