X

Fale Conosco:

Aguarde, enviando contato!

Jornal A Noticia

Transcrição da Edição de 16/04/1907 - Pg. 1

                           O Saneamento

   Ainda perdura no animo publico a dolorosa impressão causada pelas gravíssimas revelações articulada pelo dr. Alvaro de Menezes, no que há bem pouco tempo, no dizer do orgam official, constituía a única segura garantia do contracto de 13 de Abril pela sua competência profissional e pela sua probidade.

   Pois bem, este homem dotado de tão excepcionais qualidades, veio ao publico denunciar que agentes officiosos do governo patrício absoverão a titulo de commissões e bonificações a importância de 1.212:474$350 dos 4.659 contos que declara ter recebido do governo paranaense.

    Esta declaração tão formal e tão precisa, ainda mais grave se torna quando declara que taes commissões foram dadas “com annuncio e assistência do representante do governo do Estado na Europa.”

    Deixar sem contestação affirmativa de tamanho alcance moral, que vem recahir sobre a situação dominante do Estado, uma vez que não declinados os nomes das pessoas que tomaram parte em tão condemnaveis negociatas, é permitir que o nosso extremecido Estado, digno de melhor fama, fique exposto ao pelourinho da diffamação como uma Fálrepas ou uma Calabria dos antigos tempos, onde o sentimento de probidade tenha soffrido uma completa obliteração.

   As affirmações do dr. Alvaro de Menezes são de transcendental importância e precisam ser estudadas por partes. Afirma s.s. ter somente recebido 4.659 contos, quando os documentos officiaes demonstram ter sido pago 5.300 e tantos contos.

    Para onde foi a differença entre esta duas quantias, para que mãos sahiram estes 600 contos, que constam da escripturação do thezouro e dos documentos oficiaes publicados e que o dr. Alvaro dá como não recebidos? Esta differença encontrada é de fácil demonstração.

   O Estado converteo em apólices ouro a importância de 4.222 contos e os prestamistas, compensando a diferença de typo, concederam à empreza uma bonificação de 31 mil libas esterlinas.

    Em virtude dos additamentos de 9 de Dezembro de 1906 o governo do Estado pagou as seguintes quantias: 8 prestações de 110 contos ou 880 contos e mais a quantia de 141 contos constantes dos balancetes do thesouro (e que somente deveria ser de 120 contos, de acordo com a clausula 1ª do ultimo aditamento e a requisição da secretaria de Obras Publicas).

    Sommando-se estas diversas parcelas, verifica-se um total de 5.243 contos e mais a prima de 31 mil libras ou 500 contos, mais ou menos, importância muito superior aos 4.659 contos a que se refere o sr. dr. Alvaro de Menezes.

    A differença, pois, entre os dados oficiaes e o total apresentado pelo sr. dr. Alvaro de Menezes é superior a mil contos de réis. Tão tremendo libello accusatório contra o governo paranaense, não pode, e não deve passar sem contradicta e repulsa daqueles que tem a responsabilidade da governança publica.  É necessário apurar tão deprimente e vergonhosa negociata, para que a dejecção que dela respingarão venha macular reputações respeitáveis de patrícios illibados, que, certo, nenhuma comparticipação tiveram, nenhum provento colheram de tão opprobiosa operação.

   Silenciar diante de tão intemeratas articulações, é permitir que a calumnia, o descredito, a perversão da moral administrativa, venham recahir sobre o Paraná, sobre principalmente a situação dominante como um estigma de que jamais se a limpará sem destruir as imputações do homem, hontem apontado como um exemplar vivo de improbidade e de competência profissional.

   Ao sr. dr. João Candido, nome portador de um passado de honra e que ahi está moralizando as normas de governo, appelamos, como interprete da opinião publica paranaense, pedindo que abra um rigoroso inquérito administrativo para apurar as responsabilidades desses agentes officiosos, para declarar ao povo quaes os paranaenses, quaes as pessoas que se acham envolvidas neste famoso panamismo.

    Do contrario, será permittir que o joio e o trigo se misturem; do contrario será tolerar que a calumnia, si calumnia existe, alce a cabeça maculando um partido e ferindo os sentimentos de probidade do horado povo paranaense.

   A situação é dolorosa: persistir nessa tolerância, continuar a senda vergonhosa e criminosa que dominava, seduzindo pela corrupção e por um falso liberalismo, supprimindo a oppressão brutal pela oppressão moral, mais pungente e indigna, é mais do que um erro, é mais do que uma indignidade: é um crime de leza-Paraná, que a posteridade jamais envolverá com o manto de uma clemencia injustificada.

    O Paraná tem, ao certo, o direito de exigir do seo honrado filho que ora occupa as culminâncias do poder a punição dos culpados, para que o seo nome não se confunda, como morphologicamente o pode ser, com o do ominaso Panamá, dos tempos da companhia franceza.

   Não clamamos em nome do ódio: falamos como interpretes da opinião eu aspira que o saneamento moral das espheras governativas seja, não como o saneamento da Capital, mas como a mulher de Cezar, que nem ao menos possa ser insuspeitado.

    É, pois, mister agir, é pois mister moralisar, e nós mesmos, que não privamos com o palácio, que não respiramos as auras áulicas das ante-salas presidenciaes, nós mesmos confiamos que o sr. dr. João Candido há de saber-se impor à opinião publica pela probidade administrativa, exigindo que o lodo não salpique a alva túnica de seu passado.