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Detalhe do Acervo: A Represa Vicente Machado.

['A Represa Vicente Machado.]
Autor: José Carraro
Titulo: A Represa Vicente Machado.
Data da foto: 13/10/1906
Categoria: Reservatório do Carvalho
Sub-Categoria: N/A

Na página 1 do jornal “A Republica” datada de 13 de outubro de 1906, temos uma pitoresca história sobre o reservatório de acumulação, o Carvalho. Também consta uma descrição de como o transporte dos canos de ferro fundido era realizado, com a utilização de carroças.

A notícia descrita no jornal, aponta que o reservatório do Carvalho foi “inaugurado” na data de 12 de outubro de 1906, com o nome de “Represa Vicente Machado”, em homenagem ao Presidente do estado do Paraná da época, Vidente Machado, inclusive com a lavratura de ata formalizada no escritório da empresa construtora, nos mananciais.

Ao que consta, a iniciativa foi do redator Romario Martins e do proprietário do jornal A Republica, Manoel José Gonçalves, que se encontravam presentes na serra. A visita na serra ocorreu numa sexta feira, e a publicação no jornal foi em um sábado.

Abaixo, as transcrições das edições do jornal A Republica com a denominação alterada:

Jornal A Republica - Transcrição da Edição de 12/10/1906 Pg 1.

                                     INAUGURAÇÃO

            Para a Serra seguiram hoje, pela manhã, os nossos companheiros Romario Martins e Manoel José Gonçalves com outros distinctos cavalheiros, em visita às majestosas obras d’arte ali construídas para a captação das aguas que devem servir ao consumo desta capital.

            À 1 hora da tarde recebemos d’ali um recado telephonico, avisando-nos de haver sido inaugurado pelo pessoal da Empreza de Saneamento e pelos visitantes, o Reservatório de Roça Nova, recebendo a denominação de “Vicente Machado” em homenagem ao nosso preclaro Chefe, actualmente na Europa.   No acto da inauguração falou o exmo. Monsenhor Alberto José Gonçalves.

            Os excursionistas regressam hoje à capital, e amanhã publicaremos detalhado desciptivo do passeio e da inauguração.

 

Jornal A Republica Transcrição da Edição de 13/10/1906 – Pg. 1.

                         SANEAMENTO  - AS CAPTAÇÕES NA SERRA

             Fizemos hontem uma visita ao local das represas e do encanamento de agoa, na Serra do Mar.  Sem que nos mova outro intuito que não a transmissão inteira da verdade aos nossos leitores, diremos que os serviços alli observados estão de tal modo adiantados que é questão de dias apenas a sua ultimação.

            A represa geral está em reboco, tendo-se nella concluído todo o trabalho de alvenaria. Por ella já transita o transparente crystal liquefeito do braço do rio Carvalho.  Além desse rio cujas agoas estão perfeitamente captadas, a ponto de, si se quiser, encaminhal-o dentro de 15 dias, para a caixa do Alto de S. Francisco, e outros rios, como o Caiguara, esse serviço em ultimação.

            A linha adductora está a dois kilometros da represa geral; e na sua collocação trabalha uma grande turma de trabalhadores, servida por 8 carroças, empregadas na conducção dos grandes canos de ferro.

            Reservamos para segunda feira a publicação de um detido descreptivo de taes trabalhos, encerrando esta rápida noticia com a transcripção da acta lavrada no escriptorio da empresa na Serra, por ocasião de, por iniciativa desta redacção, denominar-se REPRESA VICENTE MACHADO o reservatório geral das captações d’agoa.

 Eis a acta desse preito que foi, de alta justiça, ligador do nome do benemérito do nosso grande chefe, à esse notável emprehendimento, filho do seu esforço e do seu patriotismo:

            “Aos doze dias do mez de Outubro de 1906, data anniversaria do descobrimento da America, no logar denominado Carvalho, na Serra do Mar e onde está colocado o reservatório geral das represas das agoas captadas para o abastecimento de Curytiba, presentes os srs. monsenhor Alberto José Gonçalves, presidente do Congresso Legislativo do Estado e governador do bispado; coronel Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva, 2° vice-presidente do Estado; José Fernandes Loureiro, director-presidente do Banco Comercial do Paraná; Padre Desiderio Deschand. Reitor do Seminario Episcopal; Manoel José Gonçalves, proprietário d’ “A Republica”; dr. Francisco Lucas Trevisan, medico da Hygiene Municipal; Augusto de Assis Teixeira, escrivão da Collectoria Federal; Augusto Loureiro, comerciante; dr. Carlos Taty, sub-empreiteiro das obras dos reservatórios; Marcos Leschaud, representante do fiscal do governo do Estado junto a empreza: Tancredo Freire, representante do dr. Eduardo Simmonds, sub-empreiteiro geral das obras, demais empregados da Empreza, e eu, Romario Martins, camarista municipal da Capital aclamado para lavrar esta acta, reunidos, às 2 horas da tarde, no local onde está construído o reservatório principal das captações das agoas, resolveram denominar VICENTE MACHADO à mesma represa, em honra do benemerito Presidente do Estado, realizador desse notável melhoramento”.

            Nesse momento, s. exa. Revma. Monsenhor Alberto José Gonçalves, subindo ao parapeito do reservatório, declarou que tal denominação era um preito de justa homenagem ao eminente estadista paranaense a quem se deve a obra memorável do saneamento de Curytiba; e que para uma obra como essa, imorredoira, cumpria que um nome também gloriosamente imorredoiro como o de Vicente Machado, ficasse perpetuando o exemplo de patriotismo do notabilíssimo administrador.

            E sendo por todos os presentes aceita a indicação, acclamada com enthusiasmo, foi do ocorrido lavrada a presenta acta, assignada pelas pessoas acima mencionadas.

 

Jornal A Republica - Transcrição parcial da Edição de 15/10/1906 Pg 1.

            OBRAS DO SANEAMENTO AS CAPTAÇÕES D’AGOA Na serra do Mar        

            “...A “Repreza Vicente Machado”, trabalho que honra ao seu constructor, o sub-empreiteiro sr. dr. Carlos Thaty, é uma imensa bacia de cantaria de granito, tendo as paredes internas cimentadas. Ali irão ter sete córregos: - o Carvalho, braço do Carvalho, Tangará, Mico, Urú, Caigoava e Salto, que fornecerão, reunidos, de 70 a 75 litros de agoa por segundo, o que perfaz um total de 8.000.000 de litros em 24 horas.  Essa represa tem capacidade para reter 5.000.000. O braço do Carvalho, rio de agoas claríssimas, já está captado, atravessando por grande caixa; o Caiguava está também em caminho da repreza, sendo questão de dias a sua completa captação.

            A “Repreza Vicente Machado” está a 1005 metros acima do nível do mar, e a quota da agoa a represar, ficará a 1012 metros. Outras pequenas reprezas e aqueductos parciaes ali vimos em trabalho, todos adiantados. A linha adductora tem os canos estendidos a dois kiilometros da repreza geral, e o trabalho segue activamente. Oito carroças fazem a conducção dos canos e o pessoal empregado na ligação é numeroso.

            Tudo faz esperar para muito breve, a continuar o serviço do modo que ali vimos, a conclusão dos trabalhos na Serra, e, por conseguinte, o abastecimento d’agoa a Curytiba.”

 

Jornal A Republica - Transcrição da Edição de 16/11/1906 Pg 2.

SANEAMENTO – Podemos informar ao pulico que os serviços da canalização d’agua da serra tem continuado regularmente.

O grande reservatório “Vicente Machado”, já concluído, acha-se hoje completamente cheio, para a primeira experiencia, achando-se dentro do mesmo certa de quatro milhões e quinhentos mil litros de agua. Faltam apenas 1.800 metros de ligação dos canos da linha adductora para ser a agua despejada no rezervatório d’esta cidade.

 

Jornal Diario da Tarde - Transcrição da Edição de 25/03/1907 Pg 1.              

            A noticia da morte do dr. Vicente Machado, ainda que recebida com demonstração de pezar, não foi surpresa, porque por alguns dias os jornaes annunciavam em notas telegraphicas o seu gravíssimo estado, dando minuciosamente as diferentes phases da sua dilatada agonia.

            A colônia paranaense uniu-se para dar publico testemunho de pezar pelo desapparecimento do eminente patrício, sendo nessas demonstrações acompanhada por muitos cavalheiros, que não sendo paranaenses, eram amigos do finado e o são do Estado.

            O que, porém, ninguém suppunha era que com a morte do presidente do Estado morresse também a Empreza de Saneamento, já tão cara a população coritibana e que augmentou de um modo notável os compromissos do Estado.

            A previsão dos pessimistas, em fim, veio a realisar-se. O sonhado melhoramento deu logar ao crescimento da fortuna particular daquelles que delle se approximaram, comprometteu sobremodo o credito do Paraná e permittiu que os proprietários se submettessem a um imposto um tanto pesado e extemporaneo e do que nenhum proveito compensador conseguiram fruir.

            Entretanto os seis mil contos foram habilmente encanados, não para a Serra ou para , a Caixa d’Agua seguramente mas para cofres de  donde o erário publico e o povo jamais os poderão reahaver.

E ficará nisso?                                                                                              Generoso Borges

 

Jornal Diario da Tarde Transcrição da Edição de 12/04/1907 Pg 2.

                                               SANEAMENTO

            Rio, 12 – O dr. Alvaro de Menezes publicou hoje um artigo nos apedidos do “Jornal do Commercio”, protestando contra os telegrammas diffamatórios que teem sido transmitidos desta capital a ceca da Empreza de Saneamento de Coritiba.

            O dr. Alvaro de Menezes começou o seu artigo traçando o histórico do contracto do saneamento feito por s.s. e pelo dr. Octaviano Machado, com o governo do Paraná.

Diz que as obras da canalisação de exgotos e abastecimento dagua foram contratadas pela quantia de 6.000 contos, que ao typo de 87%, importa em 5.220 contos.

            Declara que desta somma recebeu somente 4.659 contos, havendo portanto um desvio de 1.263 contos para pagamento de commissões, bonificações. Foram desviadas grandes sommas recebidas em commissões, bonificações etc.

            Diz que o governo do dr. Vicente Machado commeteu uma imoralidade administrativa, contractando por 5.200 contos uma obra que estava certo não devia despender mais de 3.400. Diz que foram despendidas grandes quantias com intermediários officiosos, com annuência e assistência do sr. dr. Vicente Machado.

            Declara que o governo do Paraná com o empréstimo na Europa não teve despeza alguma; toda ella foi paga por elle, dr. Alvaro de Menezes.   Conclue dizendo que se reserva o direito de reclamar indemnização, pois possue documentos que exhibirá em juízo para provar seus direitos.

 

Essa foi uma pequena amostra das edições posteriores à morte de Vicente Machado em março de 1907. No vácuo da “vacância” do cargo da presidência do estado, tivemos a seguinte sequência administrativa:

João Candido Ferreira - era o vice-presidente eleito na chapa de Vicente Machado e já vinha governando o estado de forma interina devido ao afastamento do titular para o tratamento de um câncer na garganta. Com o falecimento de Vicente Machado em 3 de março de 1907, João Cândido assumiu em definitivo a chefia do Executivo, governando formalmente até julho de 1907, quando renunciou ao cargo por conta de desavenças políticas.

Joaquim Monteiro de Carvalho e Silva– sucessor direto na linha do executivo, governou o Paraná de 21/07/1907 a 25/02/1908.

Manuel de Alencar Guimarães – governou o estado de 25/02/1908 a 26/04/1908, dando continuidade à linha de sucessores interinos da chapa eleitoral original.

Francisco Xavier da Silva – Em 26/04/1908 recebeu o cargo de Manuel de Alencar. Já tendo governado o estado anteriormente, assumiu para cumprir o mandato regular subsequente. Governou até 25/02/1912.

 

Qual a verdadeira origem da denominação da “Represa Vicente Machado”, lançada pelos representantes do jornal “A Republica”? É fácil imaginarmos qual foi o simbolismo que originou a denominação e o ato realizado nos mananciais em outubro de 1906.

O proprietário do jornal “A Republica” no ano de 1900 era Vicente Machado, e o jornal era na pratica, o “porta voz” oficial do governo e do partido de Vicente Machado – o Partido Republicano Paranaense (PRP). Para os presentes na visita de 12/10/1906, o ato foi uma “homenagem” que servia como blindagem ao líder, então gravemente enfermo e que se encontrava na Europa.

Destaca-se que a homenagem não foi divulgada por nenhum outro jornal da época, apenas no periódico “A Republica”.

Nos demais jornais, o clima das obras da serra era marcado por pesadas denúncias de atrasos crônicos nas obras e falcatruas financeiras. Portanto, batizar o reservatório como “Represa Vicente Machado” foi um ato partidário de um grupo político e não um consenso popular ou oficial do estado. A denominação nasceu morta fora do círculo do jornal “A Republica”.

Para o restante da imprensa, para os trabalhadores e para a população que acompanhava o escândalo dos atrasos, o local continuou sendo apenas a obra do Carvalho.

De outro lado, a força da toponímia local prevaleceu, pois mesmo antes da construção da barragem, toda aquela região geográfica já era conhecida por moradores, operários que trabalharam na obra e pelos engenheiros, como o manancial do Carvalho, devido ao rio do Carvalho em cujo leito foi edificada a represa. Era muito mais fácil e natural referir-se à estrutura pela sua localização física “a represa do carvalho” do que pelo nome político batizado na solenidade de 12 de outubro de 1906.

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