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Detalhe do Acervo: Como os equipamentos chegaram nos mananciais.

['Como os equipamentos chegaram nos mananciais.]
Autor: José Carraro
Titulo: Como os equipamentos chegaram nos mananciais.
Data da foto: 01/01/1905
Categoria: Adutora de Curitiba
Sub-Categoria: N/A

No decorrer de minhas pesquisas em documentos históricos, não encontrei descrições de como ocorreu o transporte dos equipamentos hidráulicos – tubulações e registros de descarga ou de manobra, no período da construção (1904 a 1908), desde Liege na Bélgica ou mesmo de Glasgow na Escócia, até o canteiro de obras nos Mananciais da Serra, em Piraquara/PR.

O relato a seguir não é um conjunto ficcionista, mas criado com base em informações históricas de como o transporte naval, ferroviário e por estradas era realizado à época em que as obras estavam em andamento na serra.

A logística de Liege na Bélgica.

Como já foi descrito neste site (ver em Adutora de Curitiba/A origem Belga), os canos da adutora de Curitiba e alguns registros de manobra e de descarga, foram usinados pela Cie Gle Liege ou Cie Gle des Conduites d'Eau, no bairro de Vennes, em Liege na Bélgica. (Imagem principal e as imagens n° 1 e 2 abaixo).

De Liege, os equipamentos eram transportados de trem até no porto de Anvers na Antuérpia, distante a 130 quilômetros. O transporte demorava de 5 a 7 horas. (Veja a imagem 3 abaixo).

O Port d’ Anvers na Antuérpia, concentrava as rotas de navios a vapor transatlânticos que abasteciam projetos de saneamento e infraestrutura urbana em expansão na América do sul, como no Brasil, Argentina e Venezuela. O embarque era realizado com auxílio de guindastes a vapor. (Veja as imagens n° 4 e 5 abaixo).

A Companhia de Navegação: O contrato de frete marítimo regular de Antuérpia para a costa sul-americana — incluindo as escalas nos portos do sul do Brasil — era operado pela companhia britânica Lamport & Holt Line, que coordenava o transporte conjunto com linhas parceiras, como a alemã Norddeutscher Lloyd (NDL) e vapores de bandeira belga, fretados para cargas pesadas.

Os Navios (Vapores): O transporte de cargas pesadas de ferro fundido não ocorria em um único navio, mas sim fracionado em vapores de carga regulares. Entre os navios que realizaram o escoamento desses materiais de fundição belga para os portos brasileiros, no período de 1904 a 1905, constam os vapores Cavour, Veronese e Byron (da Lamport & Holt), além de vapores de frota alemã, adaptados para o transporte de tubos de grande calado no porão. (Veja imagem 6 abaixo).

A viagem da Antuérpia aos portos do sul do Brasil poderia demorar de 30 a 50 dias, dependendo das condições marítimas e das escalas comerciais que o navio fizesse, com um trajeto de 5.700 a 6.300 milhas náuticas, ou 10.500 a 11.700 km. (Veja imagem 7 abaixo).

O porto D. Pedro II: O porto de Paranaguá/PR era o mais próximo dos mananciais para desembarque das cargas. Em 1904, o porto era denominado como D. Pedro II em homenagem ao imperador. Os tubos pesados (400 a 500kg cada), eram transferidos dos cargueiros europeus em trapiches de madeira e transbordados manualmente ou com guindastes rudimentares a vapor, para os vagões da ferrovia da Estrada de Ferro do Paraná (E.F.P), que ligava Paranaguá a Curitiba.

O carregamento dos tubos nos vagões:  Devido ao formato cilíndrico dos tubos de ferro fundido, os canos eram amarrados com correntes e travados com calços (estruturas côncavas de madeira de lei), colocados transversalmente sobre o estrado do vagão para servirem de “cama” para a primeira fileira de tubos, impedindo que rolassem para os lados. Os tubos eram empilhados em formato piramidal ou paralelo. (Veja a imagem 8 abaixo).

Transporte ferroviário: De Paranaguá até Roça Nova em Piraquara/PR, o transporte subindo a serra do mar, era realizado por locomotiva a vapor e composições com vagões plataformas (gôndolas). Devido ao peso da carga, o transporte poderia demorar mais de 12 horas. (Veja as imagens 9 e 10 abaixo).

Estação de Roça Nova: Era o ponto da ferrovia mais próximo do canteiro de obras no Mananciais da Serra, distante 9 quilômetros da estação. Como o local possuía pátio de manobras das composições, é de se supor que os vagões com as tubulações eram estacionados nessas linhas auxiliares, para os procedimentos de descarga. (Veja as imagens 11 e 12 abaixo).

Transporte até os Mananciais da Serra: O transporte até os mananciais era realizado com a utilização de carroças ou carroções puxados por juntas de bois ou muares. O boi era o animal preferido para a tração de carga pesada extrema em áreas de atoleiro. A marcha lenta e a força constante dos bois evitavam os solavancos mecânicos que podiam quebrar o ferro fundido.

Devido ao peso, também o deslocamento era árduo, e podia demorar mais de 3 horas até o destino final. (Veja a imagem 13 abaixo).

 

A Logística Escocesa:

A fabricante escocesa R. Laidlaw & Son (também operando sob a marca de incorporação corporativa posterior Laidlaw, Sons & Caine), forneceu registros de descarga instalados na Adutora de Curitiba. Essa informação está detalhada neste site, em Adutora de Curitiba/A Origem Escocesa dos Registros de Descarga. Nas imagens 14 e 15 abaixo, uma reprodução da fundição escocesa.

A R. Laidlaw & Son tinha as suas principais fundições situadas em Glasgow, na Escócia, e fazia o escoamento global de sua produção de tubagens de ferro e conexões hidráulicas, utilizando a infraestrutura portuária da própria cidade: o porto de Glasgow na região portuária do Rio Clyde e suas bacias de docas comerciais, incluindo o terminal logístico vizinho de Port Dundas, onde a empresa mantinha operações diretas e depósitos de manufatura.

Há também uma ligação logística muito plausível entre: As fundições da Laidlaw em Glasgow e o terminal industrial de Port Dundas, fazendo a exportação via rio Clyde.

Também utilizava navios de carga a vapor, que faziam a travessia do atlântico até a América do Sul, no porto D. Pedro II em Paranaguá/PR.

Apesar dos registros de descarga serem equipamentos de tamanho e peso inferiores ao citado para os tubos de ferro fundido, a logística de descarga dos equipamentos em Paranaguá era similar no que se refere ao transbordo dos navios para os vagões da Estrada de Ferro do Paraná, podendo ter sido transportados em vagões de carga fechados.

O transporte ferroviário foi realizado pela serra do mar até Roça Nova – Piraquara/PR e posteriormente, carregados em carroças puxadas por cavalos, bois ou muares; e levados até o canteiro de obras nos mananciais.

Para finalizar, na imagem 16 um quadro informativo de quanto pesava uma seção da adutora de 4 metros de comprimento, com diâmetro interno de 450mm, em ferro fundido.

Veja mais imagens.
Veja também um vídeo.