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Detalhe do Acervo: De onde veio o cimento para as obras.

['De onde veio o cimento para as obras.]
Autor: José Carraro
Titulo: De onde veio o cimento para as obras.
Data da foto: 01/07/1906
Categoria: Outras Descobertas
Sub-Categoria: N/A

Como fato histórico complementar sobre as obras iniciadas nos Mananciais da Serra em 1904, faltava documentar qual foi a origem do cimento utilizado nas construções do reservatório de acumulação e das caixas de captação.

No período inicial das obras entre 1904 a 1908, o Brasil ainda não produzia cimento, sendo o insumo importado da Europa. A produção nacional de cimento só começou a ser realizada em 1921.

Encontrei em jornais de 1904 e 1905, informações sobre a chegada no porto D. Pedro II em Paranaguá, de cargas de cimento destinadas as obras para a “Empresa de Saneamento”:

Transcrição da Edição de 31/05/1904 Pg 2 do Jornal A Republica: “Pelo vapor “Industrial” há dias chegado em Paranaguá, a Empreza de Saneamento recebeu 4.000 manilhas e 500 barricas de cimento.”

Transcrição da Edição de 03/04/1905 Pg 2 do Jornal Diario da Tarde: “Para a Empreza de Saneamento chegaram em Paranaguá, vindas de Hamburgo, 4.000 barricas de cimento.”

Transcrição da Edição de 07/12/1905 Pg 2 Jornal A Republica: “Chegou hontem à Paranaguá o vapor alemão “Fillyrus”, com 4.000 barricas de cimento, destinadas à Empreza de Saneamento d’esta capital.”

 

A escolha do cimento alemão para as obras dos Mananciais da Serra, iniciadas em 1904–1905, provavelmente foi resultado de uma combinação de fatores técnicos, comerciais e de reputação industrial. A Alemanha era uma das maiores referências mundiais em cimento Portland: No início do século XX, a Alemanha era líder em engenharia hidráulica, saneamento e materiais de construção.

Empresas como a Dyckerhoff & Söhne, a Alsen'sche Portland-Cement-Fabriken e outras cimenteiras alemãs, tinham reputação internacional pela regularidade da qualidade e pelo rigor dos ensaios laboratoriais.

Para uma obra estratégica de abastecimento de água, os engenheiros precisavam de um material que oferecesse: alta resistência mecânica; boa impermeabilidade; comportamento previsível em estruturas hidráulicas e garantia de fornecimento em grandes quantidades.

Considerando as informações históricas, o cimento foi adquirido na Alemanha. O cimento Portland produzido pelas cimenteiras Alemãs percorria rotas ferroviárias da Alemanha até o porto de Hamburgo. Posteriormente realizava a travessia marítima do Atlântico até o Porto D. Pedro II, em Paranaguá onde era descarregado.

Essa rota levava aproximadamente de 40 a 50 dias. Depois o cimento era transportado por ferrovia até Roça Nova em Piraquara, o ponto mais próximo do canteiro de obras.

Em fotos antigas tiradas 1906 que registraram visitas efetuadas às obras das caixas do Braço do Carvalho e da Cayguava (velha), é possível identificar nas imagens algumas barricas de madeira. Esse detalhe não me passou despercebido. A época que tive acesso a essas fotos, não consegui encontrar relatos sobre a utilidade dos barris nas obras.

Mas posteriormente, realizando pesquisas na Internet, acabei descobrindo que o cimento chegava ao Brasil, acondicionado em barricas de madeira, explicando desta forma a origem do que estava nas fotos de 1906.

Há evidência documental contemporânea de que em 1905, pelo menos 8.000 barricas de cimento chegaram a Paranaguá provenientes de Hamburgo e destinadas à Empresa de Saneamento, responsável pelas obras dos Mananciais da Serra. Assim, é altamente provável que o cimento empregado na construção da Caixa do Cayguava e de outras estruturas do sistema, tenha sido cimento Portland alemão.

Em 1905 a Alemanha possuía várias cimenteiras de grande porte, plenamente capazes de fornecer carregamentos de 4.000 barricas por remessa, especialmente quando o embarque ocorria por Hamburgo.

Mais um fato histórico relevante para afirmar a origem alemã do cimento: Em 1884, a cimenteira alemã Dyckerhoff & Söhne forneceu 8.000 barricas de cimento Portland para a fundação da Estátua da Liberdade em Nova York, em um dos maiores contratos internacionais de cimento da época. O volume é praticamente idêntico ao registrado nos jornais paranaenses de 1904 e 1905, que relatam a chegada a Paranaguá de dois carregamentos de 4.000 barricas de cimento, provenientes de Hamburgo e destinados à “Empreza de Saneamento.”

 Embora ainda não exista prova documental de que o cimento das obras dos Mananciais da Serra fosse da marca Dyckerhoff, a empresa possuía comprovadamente capacidade industrial e logística para atender encomendas dessa magnitude.

Algumas das principais cimenteiras da Alemanha em 1904 seriam: August Märker;  Dyckerhoff & Söhne; Alsen'sche Portland-Cement-Fabriken; Breitenburger Portland-Cement-Fabrik; Portland-Cementfabrik Germania.

Nas fotos adicionais, imagens das notícias dos jornais de 1904 e 1905; da obra da caixa do Braço do Carvalho com barricas de cimento; imagens da cimenteira Dyckerhoff & Sohne; de embarque de cimento em barricas no porto de Hamburgo e um mapa criado com IA, da provável rota do insumo até os Mananciais da Serra.

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