X

Fale Conosco:

Aguarde, enviando contato!

Detalhe do Acervo: Diário do Paraná - Edição de 05/11/1967 - Caderno 1 - Pg 8

Autor: José Carraro
Titulo: Diário do Paraná - Edição de 05/11/1967 - Caderno 1 - Pg 8
Data da foto: 04/11/1967
Categoria: SADIA - Queda de Avião
Sub-Categoria: N/A

Transcrição da Página 8 do Primeiro Caderno – Edição de 05 de Novembro de 1967.

 

AQUI, AS CENAS DRAMÁTICAS DA SERRA

 

MORRO DA REPRESA (Dos enviados especiais Divonei M. de Campos, Juares de Agostinho e Osny Albanus) – Após chocar-se violentamente com o topo do morro, deixando um rastro de aproximadamente 500 metros, distribuindo cadáveres, roupas, malas e pedaços do aparelho, o “Dart Herald”, terminava tragicamente sua viagem, às 9h18m de anteontem, com 20 pessoas mortas e 5 ainda com vida.

Ontem, às 6h30m, o cabo Sebastião e o mateiro Lachnan, encontraram os primeiros destroços do aparelho sinistrado, dando três tiros para o alto, conforme sinal convencionado entre as duas equipes da COE, para anunciar a localização do avião. O cabo faria parte do grupo comandado pelo tenente Gilberto Oiti Salmão de Oliveira, que a noite anterior acampara já próximo do local do desastre.

Cerca de 5 minutos após, o grupo comandado pelo major Hélio Gomes de Meirellles, que também estivera acampado na noite anterior próximo do cume do Morro da Represa, tendo enfrentado um paredão de pedra íngreme, chegava no local. Eram 6 horas e 35 minutos de ontem, após uma marcha forçada, por duas frentes, que iniciou às 19h30m de sexta feira.

 

Entre Cadáveres, Rosas

O primeiro sinal do aparelho foi um rodado que fora jogado a mais de 700 metros do local do desastre. Até então o cansaço dominava a tropa e, em particular o pessoal da imprensa, que despreparado fisicamente e sem vestimenta apropriada, seguia os soldados, por moral e porque não existiam condições de regresso. Mas, logo após, o sinal de localização e os primeiros vestígios do avião, uma energia que não se sabe mais de onde, revitalizava todos, indistintamente.

Os mais cansados tropeçavam e os que estavam na frente queriam correr, mas as pernas não obedeciam ao comando. Após o rodado de pneus, uma caixa de ferramentas. Mais adiante um buraco, onde foi rasgada a vegetação e estava inerte à frente do avião, juntamente com pedaços de hélices e asas. Foi o primeiro choque. Logo acima, um dos componentes da tripulação, entre uma baixa relva, ofegante com os olhos abertos sem pestanejar, era um alivio para todos que por ele passavam. Era o primeiro a ser visto com sinal de vida. Por todos os lados, numa área superior a 500 metros quadrados, viam-se pedaços do aparelho, misturados entre as bagagens, ferros retorcidos e corpos. Constratando com aquele quadro horrível, onde pairava a atmosfera da morte, um “buquê” de rosas vermelhas, estava intacto e conservava seu frescor, como único símbolo da beleza e da vida.

 

Esperança, Tristeza

Todos os presentes estavam aturdidos e visivelmente chocados. Soldados iam e vinham de um lado para outro. O quadro era dantesco e causava náuseas. Monte de cadáveres em vários locais. Próximos, um ao outro, dois cidadãos também davam sinal de vida. Um, mais idoso, com olhos esbugalhados e com voz forte deixava escapar sons ininteligíveis, como se quisesse gritar por socorro, ou demonstrar sua satisfação pela presença de seres humanos, que ali estavam para salva-lo, após uma noite exposto ao relento, entre a morte e a vida, tendo somente o céu com raras estrelas, o vento uivante e frio e uma chuva constante.

A um dos soldados conseguiu balbuciar algumas palavras: “Água, me dê água”, enquanto sua boca acompanha entreaberta a espera do pedido. O soldado sem saber qual atitude definida a tomar, tentou pegar seu cantil, sacudindo-o freneticamente em busca de água e procurando seus colegas para atende-lo, pois estava desprovido. Mas antes de qualquer decisão, o médico legal Saul Alves, major da Aeronáutica que acompanhava a operação de salvamento, dava uma ordem: “Ninguém atende nenhum dos sobreviventes; somente em atenção a determinação dos oficiais presentes”. A esta altura, também participavam dos trabalhos, um grupo de soldados do Corpo de Bombeiros e, neste interim, o major Meirelles orientava seus soldados, determinando vários serviços.

Tudo corria rapidamente, muito embora todos os presentes demonstrassem estar aturdidos. A busca, em um silencio profundo, quebrado pelo vento e uma ininterrupta garoa, prosseguia na esperança de encontrar a mais sobreviventes, pois visivelmente, por vários lugares, viam-se os mortos. Na cauda do aparelho, também destroçada, os soldados encontraram a sra. Silvia Tavares, em estado de lucidez, e um outro senhor, membro da tripulação, com a bacia quebrada. Eram 7h30m, o médico dizia que ao todo, existiam 5 sobreviventes, dentre os quais uma mulher e um senhor em estado grave, “mas espera-se assistência médica a tempo de salvar todos”.

Aos poucos, a tristeza foi dominando o ambiente que adquiria formas sombrias com uma leve serração, uma chuva fina, um frio cortante, ouvindo-se os insuportáveis gemidos ininteligíveis, dos dois senhores idosos, que se encontravam ao relento. O médico somente conseguiu a identificação da dona Silvia Tavares que estava em condições de falar, enquanto os demais sobreviventes, deixou para fazê-lo em Curitiba.

 

Fim da Tragédia

Logo após chegarem ao local, os soldados procuraram agasalhar os sobreviventes, enquanto o médico e enfermeiros prestavam os primeiros socorros. Primeiramente, todos foram cobertos por cobertores azuis, do próprio serviço de bordo e por agasalhos do pessoal do salvamento. No local onde caiu o aparelho, a vegetação é baixa e por todo o rastro dos destroços, os soldados iam colhendo cadáveres, transportando-os para um local mais acessível.  Na cauda do aparelho estavam oito mortos, enquanto na cabine, estava o comandante do aparelho, também morto, por entre ferros retorcidos. Os demais foram jogados para fora, durante o choque, dispersos por todo o terreno, onde se misturava o mato, os mortos, pedaços do avião, malas, roupas e a morte estampada nos olhos e faces que expressavam o terror, dos que ali pereceram.

Segundo militares que observaram o local do sinistro, o avião de passageiros dirigia-se para Curitiba, na rota de Paranaguá, onde acusou sua passagem pelo serviço de rádio. Enfrentava um vento contrário de aproximadamente 90 km/h, o que retardou seu percurso e seus aparelhos, sofreram interferência magnética da Serra da Represa, propiciando, então, a queda da altitude. Tudo isto acrescido do mau tempo reinante na ocasião, naquela região.

Em consequência, o avião chocou-se violentamente contra o cume da montanha, espatifando-se por entre a vegetação, a um logo percurso, com pequenas possibilidades de sobrevivência. Entretanto, observa-se no local, que se o aparelho tivesse ultrapassado o primeiro obstáculo, onde o terreno é irregular, atingiria uma relva mais uniforme em terreno mais plano, o que poderia amenizar o choque.

 

Um Sorriso que Acaba em Lágrima

MORRO DA REPRESA (Dos enviados especiais Divonei M. de Campos e Juarez de Agostinho)

Com um sorriso na face, cortado por alguns minutos de lágrimas, sem soluço e mostrando-se lucida, dona Silvia Tavares, recebeu o primeiro soldado que chegou ao local do acidente. Em seguida, foi retirada dos destroços restantes da cauda do “Dart Herald” e agasalhada por um cobertor azul, que dava maior destaque nos seus traços, seus olhos e cabelos escuros. Dona Silvia, foi uma dos 5 sobreviventes e a que mais sorte teve no trágico acidente, que roubou a vida de outros 20 passageiros.

Cercada por todos que ali chegaram, com voz nítida e compassada, exclamou: “Meu Deus, que tragédia, perdi meu marido e dois filhinhos”. O major Meirelles que estava no comando das operações de salvamento, pediu que ela não falasse, pois o “medico está para chegar”. Ela acompanhou todos a sua volta com os olhos, acrescentando com voz embargada “não faz mal; nada mais tem sentido”. Dona Silvia estava visivelmente em choque emocional e às pressas, todos queriam fazer algo para ajudá-la, prestando-lhe algum auxílio, pois seus olhos expressavam terror, medo, angustia, como se quisesse abraçar seus filhinhos, sentir a presença do marido e chorar abertamente, numa alegria como se tudo não passasse de um pesadelo. Mas a verdade é trágica e a desgraça imprevisível. Dona Silvia, não mais verá sua filhinha de 2 anos e seu garotinho de 3, como também o marido. Todos viajavam com ela e estão mortos.

 

Choro e Silêncio

Um soldado, prontamente colocou sua capa de chuva sobre o cobertor em que ela estava embrulhada, logo que a chuva aumentou. Ela estava entre a trilha aberta para a passagem dos corpos que, um a um, eram conduzidos pelos soldados em macas improvisadas em seus próprios cobertores. Numa dessas passagens, um cisco caiu sobre seu olho e ao retirá-lo, notou-se uma escoriação em sua testa. “Não, isto não é nada, devo ter batido. Não sei, mas ainda não consegui chorar” – acrescentou. Enquanto isto, um dos jovens mateiros, que contemplava a cena, deixou escapar uma lágrima e um colega da imprensa deixava de fazer as anotações, afastando-se do local “com um nó na garganta; não pude ficar ali” – disse ele.

 

O médico chegou e também pediu para que dona Silvia não falasse e ninguém ousou fazer-lhe perguntas, mas ela continuava falando como se impelida por uma necessidade. A esquerda de onde estava, vários cadáveres estavam, uns sobre os outros e dois sobreviventes gemiam, com vozes profundas e sentidas, trazendo aquela paisagem bucólica, manchada pela presença da morte, um quadro tétrico indescritível em toda sua forma chocante. Dona Silvia contava e só suas palavras quebravam o som do vento. “Antes do avião cair, todos estavam apreensivos e calados; eu ao lado de Caioby e em outra poltrona meus dois filhinhos (Caioby Tavares era seu marido) ainda vi algumas arvores antes do choque. Devo ter ficado 10 minutos desmaiada. Logo em seguida alguém chorava e eu disse como se estivesse ninando um dos meus filhos: “Calma, não chore”; depois fez-se silencio e nada se ouvia”.

 

Certeza Trágica

Mesmo sem ter podido ver quem tinha perecido ou ainda sobrevivia, dona Silvia repetiu por várias vezes, que sua família estava morta e, como se o procurasse evidenciar uma certeza trágica, logo em baixo de onde ela aguardava assistência médica, um de seus filhos jazia entre escombros.

Por um momento procurava falar ininterruptamente, trocava de assuntos na mesma proporção e rapidez. Pediu para que fizesse massagem nos pés. “Não posso me movimentar, mas sinto dor nas pernas”. O médico, entretanto, não achou recomendável, preferindo aplicar-lhe uma injeção. Em seguida, contou recordando o desastre – que após a queda tirou o cinto e conseguiu alguns jornais para agasalhar-se “mas não consegui sair do aparelho”.

 

Primeira Viagem

Mais adiante, disse que o piloto, antes do choque, pensava que estava sobrevoando Curitiba “e por isto baixou tanto. Curioso é que em São Paulo diziam que aqui fazia tempo bom”. “E dirigindo-se ao comandante das operações disse que tinha em seu poder um brilhante de 12 quilates, preso ao vestido pelo lado de dentro; como também uma pulseira de ouro”. Até aquela hora 7h30m de ontem, ninguém tinha achado.

Em seguida volta a lembrar seus filhinhos e num tom brando conta que “era a primeira viagem; eles gostavam tanto de passear” e acrescenta que nesta viagem a Curitiba, manteria contato com sua irmã Ligia, que a esperava com seu noivo. Diz ainda que seu pai, sr. Eduardo Celestino Rodrigues é chefe da TEMCO, companhia que tem obras no Paraná, “mas ele não está em Curitiba, está na Argentina a negócios”. Minutos após dona Silvia foi removida para Curitiba por helicóptero, e com outras vítimas da Serra da Represa terá ainda a difícil fase de se conformar com uma perda de tão grandes proporções. Dona Silvia Tavares fez dia 1º último, 24 anos de idade e ela conta isto como se passasse muito tempo.

 

Fonte da Pesquisa: Diario do Paraná – Arquivo Digital – Biblioteca Nacional Digital Brasil.

http://memoria.bn.br/hdb/periodico