| Autor: |
José Carraro |
| Titulo: |
O maior túnel dos mananciais. |
| Data da foto: |
14/06/2026 |
| Categoria: |
Adutora do Res. do Carvalho |
| Sub-Categoria: |
N/A |
Como já registrei em outras publicações, a linha da adutora que trazia a água das caixas de captação para o reservatório do carvalho, em algumas situações devido à topografia do terreno, obrigou os construtores a escavarem túneis para assentamento de manilhas, ou canos de ferro fundido.
Relembrando quais são os túneis que descobri durante minhas pesquisas nas matas dos mananciais: temos um pequeno túnel na linha do Iporan; outro próximo da caixa do Braço do Carvalho, outro nas proximidades do prédio da primeira Casa do Cloro efinalmente, na lateral do Reservatório do Carvalho.
Mas o túnel de maior extensão foi escavado em 1908, onde atualmente é o final da Adutora de Granito, com sua saída em ponto relativamente próximo da Caixa do Mico.
Como nos documentos antigos não há uma clara denominação para esse túnel, ao longo de minhas pesquisas atribui o nome da antiga caixa de captação que existia próxima a entrada do túnel, a Caixa Tangará. Essa caixa foi desativada quando foi construída a Adutora de Granito, em 1920. Então passei a denomina-lo como Túnel Tangará.
Abaixo, relatos que encontrei em jornal de 1908 e no relatório do Secretário dos Negócios e de Obras Públicas do mesmo ano, sobre a construção desse túnel.
Transcrição da Edição de 18/09/1908 Pg 2 do Jornal Diário da Tarde:
“Outra inauguração, que representa o resultado de mais de quatro pouco mezes de trabalho, foi do túnel construído pela actual empreza, afim de melhorar o antigo traçado da ligação das reprezas.
Esse túnel offereceu enormes difficuldades, tendo-se trabalhado dia e noite na sua perfuração, atacada ao mesmo tempo nas duas bocas. Tem elle a extenção de 189 metros, no comprimento de 243 metros da variante para o mesmo.
Com a presença dos srs. dr. Carlos Pimentel, fiscal do governo junto à empreza, Didimo da Veiga, dr. Marcellino Nogueira, dr. Adriano Goulin, engenheiro chefe dos trabalhos e muitas outras pessoas gradas, o sr. dr. Secretario de Obras Publicas ordenou a ruptura da estreita divisão ainda existente, isto é do diaphragena divisório. Nessa ocasião saudaram-se as pessoas antes separadas por esse diapfragena, sendo erguidos vivas.
A conclusão do túnel garante para breve a ligação da represa do “Cayguava”, a mais afastada de todas; e com a captação do “Salto”, mencionado no contracto, e do “Uru” e “Caimbola”, que a empreza espontaneamente fará, estarão concluídos os serviços na Serra. A comitiva oficial, que foi em carro annexo ao tem da tabella, voltou no mesmo, satisfeitíssima do passeio.”
Relatório do Secretario dos Negócios de Obras Públicas e Colonização do Paraná ao Presidente do Estado do Paraná – 31/12/1908: “Acha-se constuido todo o aqueducto na extensão de 2833,20 sendo parte em manilhas de barro vidrado de 15” e 12”, parte em tubos de ferro fundido de 18”. 12” e 6” parte em calha de tijolos cimentados, capeado por chapas de cimentos e areia de secção de 0,35, 0,45. A parte de tubos de ferro fundido de 8” e 12” na extensão de 243,0 é em túnel para evitar um desenvolvimento de 1170,00. Todo o aquedutcto é provido de caixa de areia convenientemente distribuídas.”
É muito interessante a descrição “poética” no jornal Diário da Tarde, do momento do encontro das equipes que estavam escavando o túnel, considerando a época dessa empreitada (1908), onde a execução dependia somente do trabalho braçal, com ferramentas manuais - pás, picaretas e enxadas. A retirada do material escavado era realizado apenas com carrinho de mão fabricados em madeira.
Foram 4 meses para finalizar os trabalhos. Tendo em vista toda a sua extensão de 243 metros se dividirmos por 120 dias, temos uma média de 2,00 metros de escavação por dia de trabalho.
No relato do jornal também podemos deduzir que no contexto de engenharia de túneis do início do século XX, o "diafragma" era a última parede de rocha ou terra deixada propositalmente entre duas frentes de escavação que já estavam muito próximas.
Há ainda um aspecto histórico interessante: a presença do secretário de Obras Públicas, do fiscal do governo e do engenheiro-chefe no momento da ruptura do diafragma sugere que o encontro das duas frentes era considerado uma demonstração pública da competência técnica da obra. Em 1908, acertar o encontro de duas galerias escavadas manualmente era um feito de engenharia que merecia cerimônia, fotografia e reportagem de jornal.
Mais uma informação de destaque no relatório do Secretário de Obras, é que no interior do túnel, a água era conduzida por canos de ferro fundido. A seção da adutora antes do túnel, no trecho entre a caixa Cayguava (neste caso a Cayguava Velha) e a entrada do túnel, era uma calha de tijolos, a qual descobri em 2013.
Outro fato que merece destaque: Como as duas frentes de trabalho se encontraram após escavarem por 243 metros, pois não existia equipamento “moderno” a não ser o uso de teodolitos para indicar a direção?
Mas se avaliarmos que a perfuração de túneis ferroviários já era uma técnica de engenharia dominada no Brasil em 1908, a escavação de um túnel de 243 metros foi realizada com relativa facilidade.
Outra informação a considerar é que em algum momento da história, a tubulação do interior do túnel foi substituída por canos de 450mm. No local onde seria a saída do túnel, chega um cano dessa bitola no ventilador “Pirâmide de Tijolos”. Essa torre de ventilação descobri em 2014, graças a informações do Sr. José Castro Barros, seu Zezo, que trabalhou nos mananciais.
Como não encontrei relatos de quando o túnel teve a entrada e saída bloqueadas, a minha teoria é que isso aconteceu em 1920. Com a construção da Adutora de Granito que captava a água da nova caixa do Cayguava, no final dessa adutora foi construído uma grande torre de ventilação, cuja saída de água foi ligada na adutora do túnel.
Também a decisão de bloqueio das “bocas” do túnel pode ter ocorrido pela fragilidade do solo, das paredes ou do teto do túnel. Após o bloqueio, o acesso para manutenção só seria possível com a escavação de poços para prospecção do local onde estivesse a obstrução.
Assim, a tubulação foi trocada por canos de maior diâmetro, permitindo a fácil circulação da água sem problemas de entupimento, o que dispensaria manutenções posteriores. Então a entrada do túnel foi “bloqueada” com a construção de uma torre de ventilação, cujo fundo ainda fazia a retenção de areia ou detritos que eventualmente fossem transportados pela Adutora de Granito.
O ponto dessa construção está bem abaixo da estrada do Ipiranga, e o interior da torre tem aproximadamente 4 metros de profundidade. Considerando essas duas informações, é plausível que a torre está no ponto da abertura do túnel.
Mais uma informação: essa torre de ventilação tem uma saída de descarga, a qual era utilizada para esvaziar a água do interior da torre, para os procedimentos de limpeza.
Sobre o outro lado do túnel ou sua saída, já estive no local tentando encontrar vestígios, porém sem logar êxito. Assim, deduzo que o local foi fechado há muito tempo e a vegetação e o crescimento de arvores não deixaram marcas que denunciem uma abertura escavada em barranco ou outro ponto que demonstre a intervenção humana.
Na foto principal, imagem do Google Earth do traçado do túnel. Nas fotos adicionais, a Torre de Ventilação do Lintio (homenagem que fiz ao Sr. Verolin Belão – já falecido, que em 2014 que me indicou sobre a existência dessa estrutura); a torre de ventilação “Pirâmide de Tijolos”; o túnel do Reservatório do Carvalho; imagens de teodolitos da época da construção do túnel; e criações com IA com as informações disponíveis da época sobre a escavação e de como era o túnel original.
Localização da Torre de Ventilação do Lintio – entrada do túnel: S 25°29'10'' - W 48°58'32'' - Altitude: 1042 metros.
Localização da Torre Pirâmide de Tijolo – saída do túnel: S 25°29'16'' - W 48°58'35'' - Altitude: 1040 metros.